Drª Olimpia Dornelles (1959 - 2026)
Foto: Redes Sociais
Não é fácil falar sobre terapia, é um processo longo de reconstrução que envolve fé, boa vontade, determinação, confiança no terapeuta e muitas outras coisas que não cabem nessa frase. Tive que recomeçar do zero, isso quer dizer que recomecei do gênero, do nome e do sobrenome. Na verdade, meu nome é um nome composto, que funciona como sobrenome, já que não dá pra mudar de sobrenome.
Pra quem ainda não sabe, tive uma internação psiquiátrica há nove anos, mas saí do hospital com essas questões já definidas, ou seja, novo gênero, nome e sobrenome, mas era apenas isso. Fui aconselhada pela psiquiatra a iniciar um processo terapêutico e esse caminho durou aproximadamente oito anos, até o falecimento da minha mãe.
Há anos eu frequentava uma loja de discos usados (o popular sebo) relativamente perto da minha casa e, certa vez, no caminho vi uma placa: psicologia, terapia e regressão - ou algo assim - e guardei aquelas informações em algum lugar da minha mente bagunçada. Quando minha mãe perguntou, onde vamos arrumar um terapeuta? Respondi: eu conheço um, e a levei no endereço daquela placa. Na verdade eu não conhecia ninguém, só conhecia a placa mesmo.
Não era um terapeuta, mas uma terapeuta, e se chamava Olimpia Dornelles, e confesso que, por ser mulher, me acalmou um pouco. A psicóloga e terapeuta Drª Olimpia, trabalhava com uma abordagem chamada Terapia Cognitivo - Comportamental (TCC), ela possuía outras abordagens, mas não vem ao caso agora. De modo geral ela usou bastante a TCC no meu caso.
Comentar todo o processo não cabe nesse texto, mas quero levantar meu lado profissional. Em linhas gerais, meu desempenho no mundo do trabalho foi um desastre financeiro. Nunca consegui sair da casa dos meus pais, por conta disso, não me casei, nem tive filhos. Essa questão financeira contribuiu com gotas significativas de água para o copo transbordar. Em algum momento na terapia, precisei definir meu caminho profissional dali pra frente. Acabei fazendo algumas sessões de coaching, a Drª Olimpia tinha especialização nessa área também, e o resultado foi música - tudo o que eu não queria.
Vamos dizer que o mercado da música no Brasil é uma "armadilha muito bem armada", muitos músicos - famosos ou não, tem graves problemas financeiros e uma fatia considerável, não ganha dinheiro nenhum, que era o meu caso. Eu sabia disso, mas o problema era mais profundo, não podia fazer terapia e nos intervalos das sessões, ficar olhando pras paredes, dormindo o dia todo ou ficar perdida em pensamentos sobre o meu cavalo - como diz aquela canção do Renato Teixeira. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, e segundo as sessões de coaching, o caminho mais assertivo era a música.
A primeira coisa que decidi foi, não pense em retorno financeiro, o importante é fazer. Optei por terminar algumas faixas para violão instrumental que vinha compondo há anos, faltava uma mixagem e uma masterização. Meu objetivo era disponibilizá-las nas plataformas de streamings, mas para isso ainda havia um longo caminho, que envolvia cadastro em associações de compositores, distribuidoras digitais, conta no banco e etc. O EP, Lúcia Porto - Violão Solo, ficou pronto apenas em 2022, está disponível em todas as plataformas, cinco anos após o início da terapia. É meu único trabalho, com qualidade profissional, em toda a minha carreira de instrumentista.
Um outro caminho que tomei, foi terminar meu segundo livro de entrevistas com músicos. Fiz uma tiragem mínima e poucas pessoas tem um exemplar. Todas as Entrevistas da Lado A Discos vol. II é meu único trabalho literário publicado como Lúcia - finalizado em 2021. Em ambos os trabalhos há um agradecimento a Drª Olimpia.
O tempo passou, parei de tocar violão, foquei na escrita e estou por aqui escrevendo histórias. Minha mãe faleceu de repente em 2025, mas ainda não consigo escrever sobre ela. No dia da eleição do presidente Lula (25 de outubro), cheguei da missa a noite e vi uma mensagem da Drª Olimpia. Pensei, deve ser algo importante, depois do falecimento da minha mãe, encerrei a terapia, e nos falamos poucas vezes por mensagens. Era a filha dela, avisando sobre o seu falecimento.
No dia seguinte, conversando com a filha, quis saber o que aconteceu. Ela teve um problema no cérebro e nos últimos tempos já não lembrava mais do trabalho. Logo ela, disse - me a filha. Logo ela, respondi. Fiquei por ali mais um tempo e sem perceber nos despedimos.
Ganhei a rua, acendi um cigarro, caminhei um bom pedaço até o ponto de ônibus, pensando na vida. Estava frio e não havia levado blusa, acho que minha mãe teria me avisado e a Drª Olimpia também.

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