Apesar de ser novidade pra mim, Negra Li já era uma estrela antes de gravar com o Skank. Ela já havia gravado o álbum solo, "Negra Livre" em 2006 - que contou com participação de Caetano Veloso. Puxado pelo hit "Você vai estar na minha" o álbum rendeu a cantora um Disco de Platina, mas demorei a descobrir esse álbum, acabei encontrando o CD, sem querer, num sebo, anos mais tarde.
No início de 2008 consegui uma transferência no meu trabalho de professora e fui dar aulas de música em uma escola na periferia de Curitiba. Fazia pouco tempo que a segunda temporada da série "Antônia" havia ido ao ar na TV e eu tinha uma reportagem da Folha de São Paulo, com uma foto das meninas, no meio do meu material didático. Na época, não vi a série nem o filme, mas sabia por cima que uma das meninas se chamava Negra Li, mas não associei a protagonista de "Antônia" com a cantora que fazia dueto com Samuel Rosa e aquela aula de rap que tentei organizar nunca deu em nada.
Essa dificuldade em associar personagens da música com o universo musical dos alunos foi me desgastando, de sobra ainda tinha a questão da disforia de gênero e o meu psicológico / emocional nunca foi grande coisa. Resultado, em 2011 abandonei o emprego de professora e fui sofrer em casa, que no fim, é o lugar mais confortável pra se sofrer.
Pouco depois minha família, por conta da doença do meu pai, se mudou para a zona sul de Curitiba. Ele já não conseguia subir escadas e precisava de elevador para se locomover, fomos morar num prédio próximo a dois shopping centers. Em julho de 2012, Negra Li veio para Curitiba divulgar o álbum "Tudo de novo", seu segundo disco solo. O evento envolvia um pocket show, um bate - papo e uma sessão de autógrafos dentro de um shopping e o shopping era a duas quadras da minha casa.
Comprei o CD e fui ao evento. Durante a entrevista ela me pareceu um pouco insegura, eu sabia por cima que ela era do rap, a lembrança do filme "Antônia" deve ter voltado a minha mente, mas não sabia o quanto. Talvez essa insegurança viesse da transição de estilo que ela vinha fazendo desde o "Negra Livre", saindo do rap e migrando para a soul music e o R&B, ou talvez uma outra questão, nunca vou saber.
Na fila para o autógrafo fiquei pensando, qual assunto vou puxar com ela? Lembrei da Lauryn Hill, que era a única guria do hip - hop que eu conhecia. Nessa época, eu ainda não havia me assumido e acho que era a única pessoa próxima do rap presente naquele ambiente. Vamos dizer que os clientes daquele shopping não andavam muito com o pessoal do movimento. Teve até uma vez que os seguranças estavam barrando os manos e as minas na entrada, mas isso é outro assunto e fica pra depois, não quero perder a linha de raciocínio.
Ela pareceu feliz em me ver, vamos dizer que o meu estilo destoava dos demais, falamos da Lauryn Hill e mais algumas coisas, ela assinou meu CD e fizemos uma foto. Eu não sabia mas havia acabado de conversar com uma das mulheres mais notáveis do rap nacional, cuja relevância caminha lado a lado com as pioneiras Sharylaine e Dina Di.
Só depois desse encontro fui saber que ela havia participado do RZO e tinha gravado vocais de apoio no clássico "Rap é Compromisso", único disco do rapper Sabotage, de 2001. Apenas isso já seria suficiente para colocá-la em qualquer livro sobre a história do rap nacional.
Revi o filme "Antônia", que esse ano completou 20 anos, pensando em escrever algo sobre ela e só então vi o Kamau no filme, foi uma surpresa boa! Negra Li está com 47 anos, tem dois filhos (Sofia e Noah) e esse ano comemora 30 anos de carreira.

Comentários
Postar um comentário