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A última lição de Jeff Beck

 
Johnny Depp e Jeff Beck (Divulgação)

Sempre toquei mal guitarra (e violão também), vez ou outra alguém disse que eu tocava bem, mas em geral, no tempo da universidade, ouvia: "Lúcia não toca nada", "Lúcia não merece tocar na banda que toca", no caso, na época, estava tocando baixo. Fiquei com isso, mesmo depois de ter gravado um EP de violão solo. 

Não sabia que o ator Johnny Depp tocava guitarra, fiquei sabendo ao vê-lo com o grupo Hollywood Vampire, uma banda formada por Depp, Alice Cooper e Joe Perry. Ao vê-lo tocar pensei o que quase todo mundo pensou, esse cara não toca nada, está aí por que é o Johnny Depp! O que, vamos combinar, é verdade. Se ele dependesse exclusivamente das suas qualidades musicais, não chegaria longe. Mas está cheio de gente, que não toca nada, fazendo um sucesso estrondoso por aí e não dei mais bola para o Hollywood Vampire. Tomei a banda como um projeto caça níquel.

Jeff Beck conheceu pessoalmente Johnny Depp aos 72 anos, no segundo semestre de 2016, Depp estava com 53 e já tocava no Hollywood Vampire. Depp bateu na porta do camarim de Beck depois de um show e curiosamente ficaram amigos. Detalhes, Beck não estava doente quando conheceu Depp, ele ficou doente repentinamente alguns anos depois e Depp não estava com a melhor reputação na época, enfrentava um processo por violência doméstica com sua ex - esposa, Amber Heard. 

A amizade frutificou tanto que Depp chegou a morar com Beck e sua esposa, Sandra, na propriedade rural do guitarrista, na Inglaterra, durante o lockdown da pandemia de covid em 2020. Foi nessa época que começaram a tocar e compor juntos, em um estúdio caseiro, o que viria a ser o álbum 18.

Quando soube da existência desse disco, pensei: o que levou Jeff Beck, um dos melhores guitarristas do mundo (talvez, o melhor), com uma discografia impecável, a gravar com Johnny Depp? Um guitarrista medíocre, que não consegue segurar sozinho na guitarra, sequer um show inteiro, numa banda?  Esse disco deve ter ficado péssimo, e ficou.

Refletindo, concluí que, Jeff Beck já não se importava com a mise en scène do mundo da música. Quando 18 foi lançado, em 2022, ele já estava com 78 anos, críticas, vendas, reputação, saber ou não saber tocar, vaidade, nada disso importava. O que importava era tocar e gravar com um amigo, voltar ao início, por isso, o disco se chamou 18, era como se ele e Depp voltassem a ter 18 anos e nessa fase a gente não se preocupa com nada, só quer tocar. 

Essencialmente 18 é um disco de covers, mas Beck gravou duas composições de Depp. Como disse anteriormente, o disco não ficou bom. Foi desqualificado pela crítica e quando elogiado, apenas a guitarra de Beck foi considerada. A participação de Johnny Depp acabou se tornando o problema do disco, o que era de se esperar. 

Jeff Beck e Johnny Depp, mesmo assim, foram para a estrada divulgar o álbum. A tournê durou aproximadamente quatro meses, de julho à novembro de 2022. O último show da tour foi em 12 de novembro, em Nevada, (EUA). Foi o último show da vida de Jeff Beck. Em janeiro de 2023 o guitarrista contraiu, repentinamente, uma meningite bacteriana. A doença evoluiu rapidamente e no dia 10 de janeiro ele veio a falecer aos 78 anos. Ele completaria 79 apenas em junho.

18 acabou se tornando o último disco de Jeff Beck e é considerado pela crítica o pior álbum da sua carreira. Como disse, para ele, nada disso importava, o importante era voltar ao início e reviver a essência de tocar e compor com um amigo. E depois, poucos guitarristas tiveram a chance de gravar com Jeff Beck, ou ter suas músicas gravadas por ele, e Johnny Depp foi um deles, é algo a se pensar.

Um dia depois do funeral público de Jeff Beck (ocorrido em 03 de fevereiro de 2023), que contou com a participação de lendas do rock e centenas de fãs, houve um funeral privado. Ele foi realizado na residência de campo do guitarrista, onde Johnny Depp ficou hospedado. No funeral privado estavam apenas sua esposa Sandra Beck, seu cachorro Paddy e Johnny Depp.

Ouça "This a song for Miss Hedy Lamar", canção de Johnny Depp gravada por Jeff Beck em seu último álbum 18.

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