Cabês MC (à direita) e DJ Traumatopia
(Foto: Lúcia Porto)
Era pouco depois das 18:00 hs quando vi no meu direct do instagram uma mensagem do Cabês: Lúcia, vai na audição hoje na Öus? Eu já tinha decidido que não ia, a Öus (marca curitibana de tênis e streetwear) fica ali na Saldanha Marinho, a uma quadra da Catedral, no Centro. Vamos dizer que a Saldanha Marinho, depois que anoitece, não é um dos endereços mais seguros da cidade pra quem anda a pé. No entanto, uma mensagem do Cabês, não chega todo dia no meu instagram. Minha presença devia ser importante pra ele, tomei banho, me arrumei correndo e saí.
No ônibus, sentada, fiquei pensando: se um dia, alguém escrever a história do rap curitibano, invariavelmente terá que passar pelo nome do Cabês. Não é pouca coisa, fazer parte da história de qualquer assunto não acontece todo dia pra qualquer pessoa. Obviamente que pra Deus todo mundo é importante e que esse negócio de história é assunto do ser humano.
Desci na Rui Barbosa, acendi um cigarro e caminhei, um tanto apressada, em direção a Praça Tiradentes. Na Catedral, fiz o sinal da cruz, virei à esquerda na Saldanha, caminhei uma quadra e vi um pessoal em frente a Öus.
Depois que o Cabês se mudou pra São Paulo em 2018, achei que nunca mais fosse vê-lo pessoalmente, a vida tem seus caminhos e a gente nunca sabe quando eles vão se cruzar. Nos abraçamos, conversamos qualquer coisa, o deixei interagir com o pessoal e fui pegar uma cerveja.
Antes da audição de CICLOS, quinto álbum da carreira do Cabês, ele comentou que na sua visão, a vida não é muito uma linha reta, está mais para uma espiral. Eu já tinha ouvido aquilo antes e agora fico pensando: quando o conheci, meu pai e minha mãe ainda eram vivos, hoje, por enquanto, vivo aqui trancada nesse apartamento, como diz aquela música do Leandro & Leonardo. No entanto, ainda estamos por aqui, fazendo, mais ou menos, as mesmas coisas, cada um em seu momento da vida.
De certa forma, o disco é um retorno aos anos 90, voltar ao início, mas tem muita coisa nova também, o conceito de CICLOS, gira por aí. Comentei com ele, enquanto o disco rolava: cara, não consigo compreender tudo o que você colocou nesse disco, não entendo tanto assim de rap e rimos um pouco. Ele respondeu, o importante é sentir com o coração.
Me despedi dele rapidamente, já era passado das 22:00 hs. Acendi outro cigarro, desci a Rua do Rosário em direção à XV de Novembro e virei à esquerda, rumo ao Correio Velho. Minha ideia original era voltar pela Praça Osório, mas uma vez fui assaltada ali e resolvi mudar o caminho. Fui dormir perto da 01:00 da manhã, acordei por volta da 04:30 e vim escrever esse texto. Termino e o dia já amanheceu.
Ouça "Nada pode me parar", faixa de CICLOS, quinto disco do Cabês, com participação de Bianca Hoffmann e do DJ Vitonez com a produção do Nave.
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