Bernadete Zagonel em 2016 (Foto: Rede Social)
Nós éramos, e ainda somos, de mundos sociais muito diferentes, mas nossos caminhos se cruzaram no ano 2000 na UFPR - Universidade Federal do Paraná em Curitiba. Ela vinha da UFBA - Universidade Federal da Bahia, onde tinha participado das reformas curriculares do curso de música de lá e eu era uma modesta aluna do 3º ano do curso de música daqui.
Na verdade, Bernadete tinha sido chamada para implementar mudanças curriculares também na graduação de música daqui, mas os cursos que ela organizou (Educação Musical e Produção Sonora) só começariam a funcionar de fato em março de 2001. No entanto, nós alunos do curso antigo, fomos os primeiros a receber suas ideias e métodos.
Bernadete já era professora de música da UFPR desde os anos 80, onde defendeu seu mestrado em educação em 1983, mas se licenciou do cargo no final daqueles anos e mudou - se para Paris - França, para percorrer um longo caminho até o doutorado. O título de doutora em música pela Universidade de Paris - Sorbonne, veio em 1994 e, nesse período, teve contato direto com o pensamento e a obra de dois compositores revolucionários da história da música: Pierre Schaeffer e Pierre Boulez.
Essa proximidade com a música contemporânea do século XX (período no qual Schaeffer e Boulez figuram como referências centrais) não era novidade para Bernadete. Em janeiro de 1983, ela havia sido aluna de Hans-Joachim Koellreutter — influente educador musical alemão radicado no Brasil desde a década de 1940 — durante a primeira Oficina de Música de Curitiba.
Uma das primeiras atitudes de Bernadete como coordenadora foi a criação do curso de extensão em percussão da UFPR em 1999 - pela minha memória, ela foi professora da minha turma apenas no ano 2000. O curso era ministrado por Paulo Demarchi, um importante percussionista curitibano, ligado a música contemporânea do século XX. No entanto, o curso era pago, provavelmente para custear o professor, que não era do quadro fixo da UFPR. Isso fez com que eu não pudesse frequentar o curso.
No ano 2000, eu já era uma aluna experiente, cursava o 3º ano e em idade, estava um pouco atrasada. Enquanto a maioria dos alunos orbitava na faixa dos 18 aos 22 anos eu já tinha completado 26. No início daquele ano, fui desligada da Stanley Dix, uma promissora banda de surf music da cidade, que ganhou notoriedade com o passar dos anos. Como a maioria dos alunos que conhecia estava no curso de percussão, para não ficar parada organizei uma banda de música brasileira, a Chalé Chaminé.
A maioria dos integrantes da banda (sete, era quase uma big band) vinha do grupo de percussão, entre eles Tuca Fanchin (hoje, uma conhecida atriz brasileira), Carlos Barbosa (poeta e escritor curitibano) e Marina Camargo (acordeonista, compositora e professora). Com o início dos cursos novos (Educação Musical e Produção Sonora) em março de 2001, os alunos recém chegados também começaram a formar seus pequenos grupos musicais.
Os ensaios da Chalé Chaminé, de alguma maneira, chegaram aos ouvidos da Bernadete e ela nos convidou para uma pequena apresentação em uma sala de reuniões da Reitoria. Eu não sabia, mas provavelmente, era uma reunião do Conselho Universitário (COUN - órgão máximo deliberativo da UFPR). Bernadete era coordenadora do curso de música e provavelmente queria quebrar o gelo da reunião, comemorando o início dos cursos novos que ela acabara de implantar.
Após o começo dos novos cursos, Bernadete colocou em prática um projeto audacioso, o Festival Ressonâncias, que aconteceu no Teatro da Reitoria. Ela dividiu o Festival em dois dias, 25 e 26 de junho de 2001. No primeiro, dedicado a música erudita, ela colocou o grupo de percussão, dirigido pelo professor Paulo Demarchi e o grupo de metais, dirigido pelo professor Rodolfo Coelho de Souza - um respeitado compositor de música eletroacústica (numa outra hora falamos dele). No segundo, dedicado a música popular, ela juntou todos os alunos que tinham algum grupo de ensaio, que praticavam fora do horário de aulas, entre eles, a Chalé Chaminé. Detalhe, dos dezessete grupos que se apresentaram, apenas a Chalé e mais um, tinham músicas autorais.
Nesse período Bernadete voltou a escrever uma coluna para a Gazeta do Povo - maior jornal do Paraná. Ela já escrevia crônicas para o jornal nos tempos do doutorado em Paris, mas desta vez suas reflexões abordavam questões sobre a educação musical no país. Na coluna de 06 de agosto de 2001 ela comentou da implantação dos novos cursos, dos primeiros resultados, como a realização do Festival Ressonâncias e citou nominalmente a Chalé Chaminé. Guardo, com carinho, uma cópia dessa coluna até hoje.
Me formei pela UFPR em maio de 2002, houve mais uma edição do Festival Ressonâncias naquele ano - em novembro, mas eu já não participava mais da comunidade acadêmica. Bernadete Zagonel se aposentou das suas atividades na UFPR em maio de 2003, mas sua coluna na Gazeta se estendeu até 2006. Ela também ficou longos anos como diretora cultural da Associação Comercial do Paraná.
Em 2007 entrou para a UNINTER (Centro Universitário Internacional), especializada em Ensino a Distância (EaD). Em 2017 mudou-se para a Flórida, EUA - onde é docente internacional do grupo educacional. Publicou dezenas de livros sobre música, educação musical, artes, crônicas e viagens. Bernadete Zagonel tem um filho e está na casa dos 70 anos.
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