Pular para o conteúdo principal

Rock underground - O limite entre a loucura e a saúde mental

 

Público de rock underground em Curitiba - 92 Graus (2013)

Todo mundo sabe que ter uma banda de rock underground não dá dinheiro, pelo menos, não que eu saiba. Obviamente, que há uma banda ou outra, um artista aqui, outro ali, que consegue capitalizar, no entanto, é um segredo guardado a sete chaves. Ninguém fala sobre o assunto, nem em entrevistas, nem em particular e poucos tem acesso ao dinheiro que circula. Esses poucos são divididos em grupos, que nem sempre se gostam, e esses grupos são chamados, pejorativamente, de "panelinhas". 

As "panelinhas" não são apenas sobre gosto ou estilo musical, na maioria das vezes são sobre dinheiro, circuito de bares que pagam, músicos fáceis de trabalhar, que recebem cachês abaixo do valor de mercado ou que topam tocar sem receber e os famigerados editais da Lei de Incentivo, que ninguém sabe como funciona, apenas as "panelinhas". Aparentemente é um dinheiro curto, disputado a tapa.

Mas minha ideia não é falar sobre como ganhar dinheiro nesse mercado, até por que eu não sei, a ideia é discutir como bandas de rock underground caminham na contramão do capitalismo e fazem, paradoxalmente, esse mercado girar.

A contabilidade é simples, se a sua banda gasta mais, para produzir um show ou um single, do que arrecada, ela vai quebrar. Pode demorar um pouco, você pode fazer uma ou duas músicas, uma ou duas turnês, ou até mais, uma hora você olha e diz, isso não está funcionando. É isso o que o capitalismo diz,  pare de fazer o que você está fazendo, senão você vai quebrar financeiramente. Se você tem um pouco de juízo e consegue se adaptar, você para e arruma um emprego de caixa ou repositor no atacadão, afinal, você precisa comer e pagar o aluguel.

Independentemente de você ir trabalhar no atacadão, ou não, algumas pessoas não conseguem parar de fazer o que fazem, no caso, ter uma banda de rock. Se fosse assim, as bandas, os bares e todo o circuito underground já teriam fechado. É aí que entra o limite entre a loucura e a saúde mental, que mencionei no título deste post, quando atravessamos essa linha, o dinheiro e a contabilidade, já não importam tanto. Obviamente que tudo custa dinheiro, e ele, invariavelmente, vai circular, mas a mesquinharia é tanta que, muitas vezes, não vale a pena se envolver. Às vezes só se quer tocar, sentir a alegria de estar num palco por um tempo, tomar uma cerveja e voltar para casa. 

Para muitos, insistir numa banda que não dá dinheiro, às vezes por décadas, é loucura. Para outros é saúde mental, afinal, a vida é mais do que trabalhar no atacadão, ganhar um salário miserável, comer, pagar o aluguel e assistir ao Luciano Huck nos domingos à tarde. 

Comentários

  1. Existe uma inocência e um amor inigualáveis no underground, e para falar só das coisas boas...o retorno de público sempre é muito sincero, vc fazer tanto com tão pouco, seja em shows ou em gravações nos deixa "com o coração quentinho" de certa maneira, e acima de tudo sempre precisará existir 1000 "pequenos" para existir um grande, sendo que não minha conta o valor do "pequeno" é muito maior.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Seda (álbum) 2022

Não há uma linha condutora que ligue todas as canções, mas uma escuta atenta nos faz perceber toda a riqueza e beleza desse álbum. Todas as letras escritas em um português muito bem construído. O músico  Ades Nascimento , responsável pelo projeto, explica como foi o processo de produção do álbum.  " Em 2018 o Sesi publicou Edital de inscrições para o Núcleo de Música, com as participações  do maestro Isaac Chueke , e dos produtores e compositores Vadeco Schettini e Alexandre Kassin . O Edital ofereceu 12 (doze) vagas para duas semanas de "vivência" na Casa Heitor Stockler e Estúdio Astrolábio. Foi através desse Edital que conheci Luque Diaz . Músico e produtor de uma nova geração (comparada à minha) com excelente conhecimento de produção musical. Multi instrumentista. Conhecedor de ritmos da cultura brasileira, africana e de outras nações, imediatamente rolou uma sintonia entre minhas composições e suas audições. Ao final dessa vivência submeti o projeto sedA - Ades ...

Morre o compositor paranaense Adriano Sátiro Bitencourt

  Morreu hoje (25 de julho de 2026) em Curitiba o compositor, cantor, instrumentista, regente e arranjador musical, além de ator e diretor teatral Adriano Sátiro Bitencourt . A idade e causas do falecimento não foram divulgadas. Abaixo leia matéria escrita pelo músico curitibano Edinho Man sobre Adriano para a Revista Suburbana publicada em 12 de janeiro de 2020. Vida e obra de Adriano Sátiro Bitencourt Eu gosto de “Cu...ritiba, eu quero ir fundo no meio do mundo, aqui é o lugar”, nos anos 90, não sei como ouvi essa música na rádio e achei um barato, não sei como, mas vi que os compositores são: Carlos Careqa, Adriano Sátiro Bitencourt e Oswlado Rios e o tempo e a vida passaram. Recentemente criei o grupo: Arte e Cultura de Curitiba, e á medida que ia interagindo com as pessoas, vi que tinha um integrante chamado Adriano Sátiro Bitencourt, que sempre estava participando, curioso pesquisei o perfil e relembrei que era um dos compositores desta música, fiquei envaidecido e comecei ...

De Michele Mabelle a Mih Costa

Artista marca nova fase e reposiciona sua trajetória Após um período longo de transformações e ressignificações, a cantora e compositora Michele Mabelle inicia uma nova etapa em sua trajetória artística e passa a assinar seus trabalhos como Mih Costa . A mudança de nome reflete um processo profundo de reconstrução interna. Um tempo no qual a artista revisitou sua essência e sua relação com a música. Ao longo de sua trajetória como Michele Mabelle, a artista explorou diferentes possibilidades criativas. “Com Michele Mabelle, pude explorar muita coisa. Ela me ensinou muito, principalmente no cenário do rock. A ligação com o universo dos Beatles me trouxe experiências importantes e a possibilidade de trabalhar alinhada a esse repertório.” Com o passar do tempo, no entanto, o processo criativo passou a refletir mudanças mais profundas. “Em um determinado momento nesse processo, eu entendi que, assim como eu passei por diversas transformações pessoais ao longo desses anos, a arti...